A única Doula na sala

Uma das primeiras coisas de que me apercebi quando me tornei Doula foi que as DOULAS não são sempre bem-vindas. Vale a pena repetir: As Doulas não são sempre são bem-vindas. Isto surpreendeu-me e chocou-me um bocado. As doulas estão associadas ao nascimento humanizado e ao apoio da mulher durante a gravidez, parto e pós-parto. E isso são coisas boas, certo? Com o tempo habituei-me a ser “persona non grata”. Tornou-se normal que as mulheres preferissem dizer que eu era uma “amiga” nas consultas médicas, etc. Nas conferências, como ativista e parte da organização de direitos de nascimento que co-fundei,  nem sempre voluntariava a informação de que era Doula. Porque aí ia ter de explicar o que uma Doula faz, e o que não faz, e já conseguia antecipar os olhares estranhos e as expressões de desconfiança. Especialmente por parte dos profissionais de saúde.

Na semana passada, aconteceu de novo. Num grupo muito internacional de parteiras e outros ativistas do nascimento, trabalhando juntos para a melhoria das opções para as mulheres, eu era a única Doula na sala. Num círculo onde cada pessoa disse quem eram apresentei-me como Doula, bem como presidente da associação. Dantes apresentava-me e depois acrescentava que “também” era Doula, mas desta vez decidi que em primeiro lugar e acima de tudo, estava lá como Doula. Mais tarde, no mesmo círculo, uma parteira espanhola disse acreditar que as mulheres deveriam ser atendidas por profissionais credenciados para fazê-lo! Disse-o muito ´assertively, borderline aggressive´, e eu pensei que poderia ser um comentário indireto às Doulas. “Oh, lá estás tu com o teu mau feitio, isso é imaginação tua.” disse para mim mesma. Mas a verdade é que mais tarde naquele dia, ela veio até mim e perguntou se eu era realmente uma Doula, e ficou ainda mais chocada pelo fato de que eu não era uma parteira e uma Doula, eu era apenas Doula. E começou falar-me das coisas horríveis que as Doulas faziam. A opinar onde não eram chamadas. A dar conselhos sobre amamentação sem terem formação para isso. Não digo que não haja Doulas que vão além de fornecer informação isenta, ou que não hajam Doulas que por vezes não agem corretamnete. Suponho que todas as profissões têm elementos que não vivem de acordo com a verdadeira natureza de sua arte. Mas por que é que as Doulas são sempre culpadas antes de provarem ser inocentes? Educadamente expliquei que as Doulas não dão “conselhos”. Apenas dão informação.

A verdade é que as Doulas são realmente incríveis. E apercebi-me que não sou uma ativista do parto que se tornou doula, eu sou Doula em primeiro lugar. E isso, se me permitem dizê-lo faz das Doulas umas ativistas de parto brutais. Porque tens de ser mais sensível do que a maioria, saber ler cada dica, antecipar todas as dúvidas, tornares-te invisível quando é preciso, e “Estar” apenas. E vês, testemunhas, vives todas as injustiças, todas as falsas promessas, todas as mentiras, todas as coisas chocantes que uma mulher atravessa durante o seu percurso como utente na sua gravidez e parto. Também vives isso, pois estás ali mesmo ao seu lado. Por isso tens de ser resistente como um soldado. Apoiar as mulheres com todas as ferramentas, informações e respostas que a ajudarão. Para testemunhar a loucura deste serviço de saúde materna, e permanecer composta, diplomática mas atenta, com uma voz que se mantém calma quando dizes “Não, ela tinha dito que não queria que fizessem isso oh muito obrigado Dr. X (por respeitar os seus direitos que não nem sequer deviam estar em  discussão.) ”
As Doulas são excelentes. Elas são incríveis. Trabalham com o coração. Está na hora de pararem de ser discriminadas. E sim, eu sou Doula. Prazer em conhecê-la!

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