Crianças a assistir ao parto?

A chegada de um irmão ou irmã é um acontecimento bastante significativo na vida de uma criança. Desde que o parto se tornou um evento medicalizado e “escondido” da grande maioria das pessoas, a possibilidade de poder testemunhar ou acompanhar a chegada de uma mana ou mano desapareceu. O bebé tornou-se assim um Ser abstrato, que cresce dentro da barriga, depois a mamã desaparece durante um par de dias e volta com uma criatura envolta em mantas e mistério. A forma como a criança lida e integra tudo isto depende de inúmeros fatores, mas sem dúvida que uma boa preparação ajuda.

Independentemente do local onde vai decorrer o parto, se essa for a vontade da mulher/ casal, envolver as crianças nas sessões com a doula, estar presente em algumas consultas médicas ou ecografias, pode ajudar a ir desmistificando o que vai acontecer quando a mamã entrar em trabalho de parto, e como ou quando o bebé vai chegar. É ainda uma oportunidade de ouro para explicar como nascem os bebés! 😉
No caso de um parto domiciliar, a criança tem a possibilidade/oportunidade de assistir “a tudo”. Nesse caso, é bom ter algumas coisas em mente:

• Pode combinar-se com alguém que (estando no parto ou não), possa dar atenção à / às crianças ou vir busca-las se o trabalho de parto se revelar muito longo ou como já ouvi algumas vezes de manos ansiosos “chato”.

• Falar do parto previamente com a criança, explicar que sons esperar, mostrar o equipamento das parteiras.

• Possibilitar que a criança conheça a equipa antes do parto.

• Poder ver alguns filmes de parto (devidamente pré-aprovados pelos pais, e de acordo com a idade) para esta ter uma ideia do que pode acontecer, como vai ser.

• Dar-se à criança algumas pequenas tarefas durante o trabalho de parto/parto. Seja pendurar as “Afirmações Positivas” na parede, ajudar a dispor o material das/os parteiras/os, ajudar a preparar outras “parafernálias”.

• Incluí-la nas “massagens” à mamã, e explicar-lhe de antemão que esta pode não querer muito toque ou conversa à medida que o TP avança.

• Combinar com a criança (se tiver idade suficiente) se quer estar mesmo presente no parto. Quer faltar à escola naquele dia? Quer que a vão buscar à escola caso as coisas comecem e ela lá estiver? Quer que a acordem quando o bebé estiver a nascer se acontecer a meio da noite? Á medida que a gravidez avança e a data “prevista” se aproxima, toda a gente vai ficando mais entusiasmada ou ansiosa. Incluindo a criança. Ter uma ideia clara de que não será esquecida independentemente de onde estará quando o bebé estiver a vir pode reduzir e muito os seus níveis de ansiedade.

• Partilhar com a criança alguns materiais adequados e interessantes especialmente feitos para a ajudar a perceber/integrar esta experiência. (livros, pequenos filmes, etc)

O parto é um evento muito poderoso, e muito belo. Mas também pode ser intenso, impressionante ou mesmo assustador, se a criança não estiver preparada (ou mesmo que esteja!). Ver a mãe a lidar com as ondas das contrações, a fazer sons guturais que nunca ouviu, pode ser demais para a criança. A doula pode ir assegurando de que tudo está bem, que é mesmo assim, e apoiar a criança e/ou a pessoa que está encarregue de estar com ela na gestão de tantas emoções, ou sugerir irem dar uma volta, quando a mãe precisa de mais privacidade e parece que “não está a acontecer nada”. Um passeio ao parque para apanhar ar e dar espaço à parturiente pode fazer milagres!

 

Quando se proporciona, a experiência pode ser simplesmente maravilhosa. Que presente tão especial poder-se presenciar em criança o nascimento dos nossos irmãos ou irmãs. E saber desde tão tenra idade, como se desenrola um parto, esse evento ao mesmo tempo tão mundano e divino.

Por último, e como sempre, a decisão final de ter ou não outros filhos no parto deve caber única e exclusivamente à mulher grávida. É importante que esta tenha autonomia para poder escolher estar sozinha se assim o preferir. E dar-se-lhe espaço para que possa decidir e mudar de ideias na altura. Sem sentir pressão dos demais nem para um lado, nem para o outro. Tudo coisas a falar, preparar, antecipar nas sessões de pré-parto. Nunca menosprezar a poder do “na altura decido e está tudo bem”!

O parto não é a altura de fazermos concessões pelos outros ou para os outros. Nem de ceder quando algo não nos parece boa ideia. Quando mais a mulher sentir que as crianças mais velhas estão bem entregues, preparadas e apoiadas, mais facilmente poderá entregar-se ao processo e deixar que as maravilhosas hormonas do parto façam o seu trabalho, com privacidade e autodeterminação. Quer o parto seja domiciliar ou hospitalar.
O parto é, afinal de contas, sempre, em última instância, da mulher.

Créditos fotográficos de Patrícia Ferreira Fotografia. Imagem partilhada com a autorização desta família tão especial, que tive o prazer de acompanhar.

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