Carta a uma mãe que dará à luz durante uma pandemia global

“O que é que eu vou dizer à minha filha? – perguntaste-me, “quando ela quiser saber a história do seu nascimento?”

Poucas mulheres alguma vez imaginaram que iriam dar à luz durante uma pandemia global. Quando os protocolos hospitalares e as consultas médicas são uma vertigem de informação nova a cada minuto, parecem estar constantemente a mudar e as políticas cada vez mais restritivas levam para cada vez mais longe os sonhos que tinhas para o teu parto. É inevitável como seres humanos que somos, tentarmos agarrar-nos ao que conhecemos, a querermos que as coisas sejam como eram antes, a e cairmos no “porquê eu?!; porquê agora?!; era só o que me faltava!”

À tua volta o Mundo parece girar cada vez mais rápido, numa miríade de informação, medo, pânico, desamparo e desespero. As piadas e memes sobre a quarentena nas redes sociais já não têm piada nenhuma. Tudo o que queres agora é terreno firme para te apoiares e respostas definidas, ou pelo menos um abraço. Receio não poder dar-te nenhuma destas coisas neste momento.

Em alturas de demasiados estímulos no Mundo exterior, é sempre boa ideia voltarmo-nos para dentro. Desliga o medo, as perguntas e milhões de opiniões online. Será que são os teus medos, perguntas e opiniões? Fecha as notícias que tens permitido que bombardeiem os teus dias. Se necessário, consulta-as de tempos a tempos apenas, quando precisares estar informada. Mas de resto, faz “mute” no resto do Mundo.

Neste momento, há muita coisa que eu não sei. Mas há coisas que sim. E sei que há coisas que não mudaram. A tua barriga vai continuar a crescer e dentro dela, a tua bebé está segura e protegida. Aquecida pelo fluir suave das tuas águas, nutrida pelo mistério genial que é a tua incrível placenta.

O teu corpo precisa de cada vez mais oxigénio para responder às necessidades da tua bebé em crescimento. Por isso os teus pulmões ficaram maiores. O teu volume de sangue aumentou em 50%, para poder sustentar o teu útero. Enquanto isso, o teu coração trabalha afincadamente para bombear toda esta nova força e energia. O teu corpo torna-se cada vez mais flexível: os teus ligamentos ficam mais soltos graças à hormona relaxina, em preparação para tudo se abrir e a tua bebé passar. Estás a ver como o teu corpo é incrível? Dentro de ti há muitas coisas mágicas a acontecer. Continuamente. Tudo para melhor carregares e dares à luz à tua bebé.

Quando for altura, as magníficas hormonas do parto vão amolecer o colo do útero, empurrar a tua bebé para baixo e abrir o portal para que ela possa emergir do lado de cá da vossa história. E nisso podes confiar. O teu corpo funciona. O parto funciona. Com uma precisão e certeza aperfeiçoadas ao longo de centenas, milhares de anos. Tu e a tua bebé vão fazer isto juntas. E se refletirmos sobre isso, apenas duas pessoas são necessárias para que um parto aconteça: uma mãe, e um bebé.

Vai fundo dentro de ti. Reza, canta, medita, o que te fizer sentido. Encontra o teu centro. O teu lugar de paz. Não há nada que precises de fazer, ser ou ter neste momento. É só deixares o teu corpo fazer seu trabalho. E ele é muito, muito bom nisso.

O que é que vais dizer à tua filha? Vai ser mais ou menos assim: “Tu nasceste no ano do grande vírus …” e continuarás a contar tudo o que aconteceu, tudo o que ainda não sabemos sobre esta história ainda por desvendar. Mas seja o que for que lhe contes, do que escolheres dizer-lhe…não te esqueças da parte em que a sua mãe foi tão forte e corajosa.

Com amor e respeito.

A tua doula Sara.

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