A importância de contarmos a nossa história de parto

“Há muita coisa que eu ainda não sei. Sobre a vida, sobre o que o futuro poderá trazer. Mas reconheço o valor da minha história. Mesmo que não seja sempre bonita ou perfeita. Mesmo que seja mais real do que aquilo que desejarias, a tua história é o que tu tens, e o que sempre terás. É algo a assumir. ~ Michelle Obama in Becoming.

 

Um dos momentos mais importantes de uma sessão de pós-parto, é quando uma mulher tem a oportunidade de falar do seu parto. Como se sentiu, e como os eventos se desenrolaram pela lente da sua perspetiva. E o complementar dessa história pelo seu parceiro e a sua doula.

Pode parecer irrelevante ou redundante, falar-se de algo que acabou de acontecer e onde lá estavam todos. Mas não é. Mesmo que as coisas se tenham passado “exatamente como planeámos” (se é que isso se pode sequer aplicar ao parto….ou à vida).

“Porque é que isto aconteceu?”

“Quando a enfermeira entrou, porque é que estava com tanta pressa?”

“Tu fizeste uma cara estranha quando o CTG começou a apitar. Em algum momento estivemos em perigo? Mas não nos quiseste assustar?”

“Lembras-te quando o bebé saiu todo escorregadio e a parteira nem sequer teve tempo de pôr as luvas?”

“Eu sabia que ela estava mesmo à porta e que era só fazer força, mas precisei de um pouco mais de tempo com ela dentro de mim.”

“Será que tinha mesmo que acabar em cesariana?”

(Tudo coisas que já ouvi das mulheres nestas sessões de história de parto, entre outras coisas.)

O contar da sua história ajuda a mulher a colocar em perspetiva como se sentiu em relação aos acontecimentos e circunstâncias. E obter mais informação, se essa for a sua vontade.

Também pelo facto de o pai e a doula por vezes se irem revezando durante o parto, também nós nos lembramos de partes diferentes da história. O que aconteceu quando o companheiro foi descansar? O que se passou antes da doula chegar? Então juntos vamos fazendo este puzzle, costurando os retalhos da história dela. E o que cada pessoa sentiu e pensou.

No entanto, nunca nos devemos esquecer de que esta é a história dela. Ela é a protagonista. Ela conseguiu. Conseguiu a parir de joelhos e a apanhar ela mesma o seu bebé. Conseguiu depois de levar a epidural, descansar umas boas horas para depois fazer força para ter o bebé em todo o seu poder. Conseguiu deitada no bloco operatório como uma deusa guerreira. No contar desta história não há lugar para salvadores/as ou heróis, ou pessoas que possam roubar-lhe o protagonismo. Mesmo que claro, muitas mulheres estejam agradecidas a profissionais de saúde, cuidadores, doulas que tornaram o seu percurso mais fácil, bonito e prazeroso. Ela é que está no centro. Ela é que fez o “trabalho duro”. Reconhecemos e agradecemos a todas as pessoas maravilhosas no seu caminho, mas a experiência é dela. E essa deve ser sempre a mensagem principal que lhe fica. Eu consegui. O parto foi meu.

O contar da história é importante. Do início ao fim. Quando dizemos as palavras em voz alta, estas tornam-se reais. Materializam. Aconteceu mesmo.
E muitas mulheres gostam de o fazer. Precisam disso. E muitas fá-lo-ão espontaneamente. Até mesmo durante o parto, podem falar de experiências anteriores, Como foi no(s) seus(s) parto(s) anterior(es). Comparam. O bom, o mau. Alguns medos podem vir ao de cima para serem olhados de frente.
“Do meu primeiro filho as águas já tinham rebentado por esta altura. Porque é que ainda não rebentaram desta vez?”

“Será que algo não está bem? O meu segundo parto foi bem mais rápido”.

“Estas sensações são tão parecidas com quando perdi aquele bebé bem no início. Sinto as mesmas coisas.”

“Esta sala tem o mesmo cheiro de quando fiz uma interrupção. Nunca falei disto antes. Eu era tão novinha.”

 

É um privilégio sermos o recetáculo de insights tão sensíveis e especiais da sua vida. É importante ouvir sem julgamento, enquanto se gerem expetativas, e surgem por vezes histórias tão dolorosas. Histórias de perda, abandono, violência, abuso. Ou de alegria. De se tentar imitar o que aconteceu num parto anterior, quando tudo estava “perfeito”. A medida da vergonha, do medo ou da dor de uma mulher em relação ao seu parto e o que aconteceu consigo, está diretamente ligada à forma como vê o seu próprio corpo, as suas capacidades, e as suas cicatrizes. Pode ajudar deitar cá para fora. Por vezes, depois dessas partilhas espontâneas, as contrações que tinham “estagnado” voltam. Ou a bolsa de águas lá rebenta. Ou ela tem vontade de fazer força. Ou entra em trabalho de parto no dia seguinte. Ela rendeu-se.

E tu, já alguma vez contaste a tua história de parto? A quem te ouvisse sem julgar, sem medo das partes assustadoras? Alguém que não vai tentar silenciar-te ou “dourar a pílula”? Ou impressionar-se com as partes sangrentas (sejam estas físicas ou emocionais). Ou interromper-te para contar como foi com eles? Alguém que se vai regozijar das tuas conquistas, e ser testemunha de como te sentiste? Que celebrará contigo as tuas vitórias? Mesmo que não tenham estado lá. Alguém que quem sabe pela primeira vez, te vai permitir ouvir que o que fizeram contigo não está certo. E que sim, foste espetacular no teu parto. Alguém que te vai dizer que és grande, e bela e incrível, independentemente do desfecho. E que aceita contigo que tudo pode não estar bem. As coisas levam tempo a curar, mas podes apoderar-te da tua história com orgulho. Faz parte da pessoa que és. Do que viveste. Do que sabias na altura, do que sabes agora e do que gostarias de fazer diferente daqui para a frente, quem sabe.

Nunca é tarde para contares a tua história de parto. Mesmo que os teus bebés agora tenham os seus próprios bebés. Nunca é tarde para dizeres o que tens a dizer. Dizer, ou escrever, cantar, dançar, curar. E às vezes precisamos realmente desse tempo para entender melhor o que aconteceu.

Existem muitas histórias de parto que rodeiam a mulher quando esta entra na sua sala de parto. Quer ela o saiba quer não. Ela carrega essas histórias consigo. E o trabalho da doula é muitas vezes precisamente o testemunhar o largar dessas histórias que a rodeiam, como se de camadas de uma cebola se tratassem. Resolver e deixar para trás esses medos, dúvidas, traumas, expectativas, idealizações. O parto das nossas mães e avós. Os partos que nos mostram nos media. Os partos das nossas amigas. A forma como nos foi contada a história do nosso próprio nascimento. O que vemos nas redes sociais. Até os vídeos de partos “perfeitos”do youtube. Como podemos discernir no meio de todas essas histórias o que é nosso e no que realmente acreditamos? Como podemos reivindicar a nossa história por si só com nossa verdade? Na nossa própria perceção. Esse é o poder das histórias que rompem com os velhos padrões. E é preciso coragem para quebrarmos padrões e assumirmos a nossa verdade. E tu és tão corajosa.

Agora anda, deixa-me sentar aqui ao teu lado. Conta-me como foi o teu parto.

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