Violência Obstétrica na Era do Plástico

Deram ao meu filho mais novo uma daquelas caixas individuais de banana, em plástico amarelo brilhante. A primeira coisa que me veio à cabeça foi: “com certeza vai ser difícil encontrar bananas que se encaixam perfeitamente dentro desta coisa”. A banana em questão teria que ter o comprimento, a largura, e a curvatura exatos da pequena caixa de plástico amarelo. E tal como eu previra, apesar da excitação do meu pequenino em experimentar a caixa–banana assim que chegou em casa, nenhuma das nossas bananas cabia. Porque a caixa de plástico foi construída com base no que se associa com uma banana, como a banana “perfeita” deve ser. Quase como uma banana de desenho animado. Como a banana “ideal”. Isso fez-me pensar no parto. Não me perguntem como as bananas me fizeram pensar em partos, mas penso em partos praticamente todos os dias, por isso, na minha cabeça, faz todo o sentido que as bananas me tenham lembrado o parto. Lembrou-me de todas as situações em que as mulheres são colocadas em caixas, categorizadas e forçadas a encaixar-se na opinião e ideia de outrem, sobre como devem ser seguidas durante a gravidez, como devem parir. A grande maioria dos Sistemas de Saúde Materna do Mundo estão organizados como se fossem grandes fábricas, onde de um lado entra a mulher grávida, e na extremidade oposta, sai com um bebé. O que aquela mãe e bebé passaram enquanto estiveram lá dentro, a maior parte de nos nem desconfia, e francamente, na minha opinião, as coisas são feitas para ser assim. Talvez seja por isso que quando as mulheres contam a história do que lhes aconteceu no parto, a elas e aos seus bebés, ninguém na verdade acredita nelas. As bananas não cabiam na caixa, umas eram muito grandes, outras muito retas, outras muito gordas. Outras cabiam porque eram pequenas, mas oscilavam tanto lá dentro que tinha certeza que ficariam muito amolgadas se estivessem lá dentro tempo demais. Fui persistente, obriguei-as a encaixar. Forcei-as. Algumas ficaram feridas na base, quando empurrei a sua extremidade na forma curva. Outra tive de que cortar em bocadinhos para caber. Nunca mais seria a mesma. E como era tão grande, parte dela teve de ficar de fora. Outra era tão gorda que tive de amassá-la para caber tudo lá dentro. Foi triste destruir bananas tão belas, tudo por causa de uma caixa. Eram bonitas tais como estavam, tão diversas, maduras e cheias de potencial.

O que estamos a fazer a mães e bebés diariamente? Os cuidados de saúde na gravidez e parto não estão a conseguir dar resposta a todas as necessidades e desejos das mulheres. Parece que atualmente tudo o que importa é avaliar o risco, seguindo o protocolo de uma instituição. Tornou-se um sistema de fazer cruzinhas e preencher formulários, onde os profissionais são ensinados a olhar para os testes, o ecrã, os exames, mas não para a mulher que está mesmo ali, à sua frente. Na verdade não estão a vê-las. Estão a tentar fazê-las encaixar-se num molde.

É compreensível que com um Sistema tão vasto, tenham de existir medidas que assegurem que as mulheres beneficiam de testes, exames e cuidados adequados às suas necessidades. Mas apenas algumas dessas necessidades são baseadas no seu quadro clínico. Parte dessas necessidades passam por se sentirem ouvidas, compreendidas, e por conhecerem os profissionais que as acompanham. Ter uma palavra a dizer sobre quem convidam ou não para as acompanhar durante a sua gravidez e o seu parto. E essas necessidades não estão a ser tidas em consideração. Será que podemos ter um Sistema que seja inclusivo, atencioso e diverso? Centrado nas necessidades dessa família em particular? Será isto assim tão utópico? Será difícil de se conseguir, numa unidade obstétrica actual? Não tenho uma resposta definitiva para isso. Mas o meu palpite é que a resposta possa estar em tornar essa caixa maior. Se houver mais espaço, mais opções, quem sabe, todas as mulheres possam caber muito bem lá dentro. As mulheres, os bebés, as famílias existem em todas as formas e tamanhos. O nosso mundo é vasto e diverso e nossas sociedades também. O sistema de cuidados de saúde materna deve refletir isso. E a meu ver, isto é um assunto de todos. Não basta apenas ouvir e concordar. Precisamos agir. E embora a mudança seja muitas vezes difícil, é necessária. Sou a eterna otimista. Por isso acredito que todos juntos, vamos conseguir tornar isso uma realidade.

One thought on “Violência Obstétrica na Era do Plástico

  1. E depois do parto a saga continua com os médicos e as enfermeiras do Centro de Saúde: “O seu bebé já tem 6 meses e ainda não gatinha? Tem 1 ano e ainda não anda? Diz quantas palavras? Já sabe falar alemão, espanhol e mandarim? O quê? Não pode ser, o seu filho é um anormal e a culpa é sua!”

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